Domingo, 1 de Junho de 2008

LEMBRANDO UM PASSADO RECENTE.

 

 

 

 

 

Algumas notas sobre aparelhos de elevar água de rega nos meados do Sec. XX
 
 
A área geográfica do alto Ribatejo, com um clima quente e seco, necessita que os seus solos sejam irrigados no fim da  Primavera e no Verão, caso contrário, a sua agricultura dificilmente se desenvolverá. Neste período, sempre que sopram os fortes e secos ventos de leste, torna-se necessário fazer regas, frequentemente, para que as culturas dessas estações, não morram de sede. Trata-se de uma rega de carência destinada a fornecer água, especialmente, às hortas e pomares.
A irrigação, toda ela de iniciativa particular, aproveitava não só a água dos poços- alguma de nascente, outra das chuvas- espalhados, em grande número, por todo o mundo rural, abertos pelos proprietários dos terrenos, como também a das nascentes de minas e das ribeiras e do rio Tejo, que forneciam água para regar os terrenos agricultados das suas margens.
Sempre que havia desnível entre as nascentes, caso de algumas minas e açudes construídos nas ribeiras, e o local a irrigar, o sistema de rega mais usual era a "rega por seu pé", também conhecida por "rega pelo pé ou "rega pelo rego", processo em que o agricultor ia direccionando a água, com abertura de regos feitos à enxada ou sacho, até que ela chegasse às plantas.
Estamos a referenciar a rega sem necessidade de aparelhos para elevar água.
Na falta desse desnível, encontrávamos, em funcionamento, nos meados do século XX, dois importantes aparelhos de elevar água: as noras, movidas por animais e as picotas accionadas pela força do braço humano:
1- Nora- ár. na’ûra Engenho para tirar água dos poços, ribeiras e rios. A mais           utilizada era a nora mourisca, em que o engenho está todo a descoberto e o animal trabalha num círculo à volta da nora, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, fazendo mover duas rodas, na maior das quais estavam os alcatruzes de metal ou de barro, estes muito raros.
      
Nora com alcatruzes 
 
 
Havia também noras em que o animal andava ao lado, descrevendo um círculo, próximo da nora, não concêntrico.
 
Nora em ruinas, com alcatruzes
 
 
As noras eram movidas, habitualmente, por muares e asininos, que, quando “presos à nora” eram encaraçados para que dessem maior rendimento e não perdessem o sentido de orientação.
Dada a lentidão das bestas, a água tirada do poço com a ajuda dos alcatruzes, era insuficiente para encher conveniente um rego e por isso era encaminhada, primeiro, através de encanamentos, para os tanques, construídos em pontos altos, com podiam armazenar 3 ou 4 metros cúbicos de líquido. Daqui saía, e por gravidade, seguia a água, através de regos, até ao campo cultivado: tranços, leiras e canteiros.
Para encherem um tanque de água estavam presas à nora uma boa dezena de horas, intervaladas por períodos de descanso.
 
2- Picota- Do céltico, árabe ou francês? Engenho simples, tosco em madeira,  que serve para tirar água dos poços pouco fundos ou de vales, rios e ribeiras, para as regas, formada por uma longa vara ou tronco basculante, o vaivém, chamado balança, balanço, esteio ou cambão, de pinheiro, eucalipto, ... , que se apoia, através de um eixo, num prumo ou poste vertical, denominado pégão ou pilar, forquilha ou garfo e tem numa das extremidades um peso devidamente calculado, uma simples pedra e na outra suspenso, de duma haste rígida- a varela-, onde fica preso o balde de zinco ou de madeira, destinado à elevação da água, que é deitada no tombadouro ou tabuleiro, que podia ser de zinco ou madeira, indo de seguida, para os regos ou leiras para fazer a rega directa. Este aparelho também é conhecido por cegonha, burra.
 
Foto de M.M.Alves
 
 
 
Tratava-se de um trabalho árduo e penoso, realizado por homens e mulheres, pouco amigo de suas mãos. Uma manhã agarrado a uma varela, era uma manhã que não agradava a ninguém. Normalmente, a água não era armazenada, seguindo, directamente, para as terras a regar, o que exigia mais uma pessoa para a encaminhar até ao destino.
 
Para além da rega, a água dos poços tinha muitas outras importantes funções. Utilizava-se na: cozinha, higiene, lavagem de roupa, preparação das viandas dos suínos. Dela bebiam os animais domésticos e quando potável, as pessoas. Era costume as famílias sem terras e poços pedirem autorização, para neles se abastecerem, aos respectivos proprietários. O seu transporte era feito em cântaros de barro, transportados à cabeça, por mulheres.
 
 
 
Pesquisa e texto de Carlos Bento

 

publicado por casaspretas às 17:36
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3 comentários:
De antonioduvidas a 14 de Setembro de 2008 às 18:28
Além destes engenhos que descreve acrescento um que existia na minha terra de Entre-Douro e Minho e que ainda não vi referido aqui na NET. Então era assim: as presas de água junto aos lameiros para que estas lançassem a água para os mesmos sem a juda do homem eram-lhe colocado um "engenho", dois troncos de pinheiro furados, mais tarde utilizavam-se tubos de PVC, ligados em ângulo agudo (60º + ou -) um dentro e outro fora da presa que funcionavam por sucção. Quando a presa enchia na totalidade começava a esvaziar e assim acontecia sucessivamente.
Conhecia esta engenhoca?
Saudações, antonio


De casaspretas a 16 de Setembro de 2008 às 11:12
Olá António Dúvidas
Conheço o processo que era utilizado, em Mouriscas, para tirar o vinho dos potes para outras vasilhas e água dos tanques para várias utilizações.
São processos artesanais, sempre de grande utilidade, que convém inventariar e divulgar para conhecimento das gerações mais novas.
Com os meus respeitosos cumprimentos.
CB


De antonioduvidas a 20 de Setembro de 2008 às 18:10
Sr. Carlos Bento:
Como estamos a falar de regiões diferentes na orografia penso que aí por Abrantes (recordo daí a m/vida militar) este "engenho" não seja de todo conhecido. A minha região, onde nasci, de Entre-Douro e Minho, Cinfães é bastante alcantilada, e por isso a procura da água era geralmente feita por minas que encaminhavam a água para as presas quase sempre feitas junto à boca da mina. Como os lameiros eram alimentados com água quase contínua, chamada água de lima, daí esses "engenhos" trabalhassem sem a ajuda do homem quer de noite como de dia.
Quando for à minha aldeia vou ver se há por lá algum encostado para lhe enviar uma foto.
Concordo absolutamente consigo que devemos preservar estas memórias.

Saudações, antonio


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